Sai do quarto e coloquei os pés na sala, o homem de cabelo grisalho, quase branco, estava sentado na cadeira dele, na cadeira branca, toda trançada, onde só sentava uma pessoa, ele. Dei o pequeno sorriso que tinha, assim que ele percebeu minha presença e desviou o olhar de trás do jornal, desejou um bom dia e eu desejei o mesmo de volta. Encontrei meu pai na cozinha, tomando o café que a mulher toda eletrica tinha feito, ela que me deu um beijo na testa e desejou alegremente um bom dia pra mim, enquanto colocava as opções de torradas e recheios em cima da mesa.
Passavam horas, e a casa estava cheia, lotada de pessoas que chamamos de família. Minha irmã usava um aparelho fixo, em que não podia comer balas e chicletes. Estavamos nós, os seis: eu, a do sorriso aberto, caçula, metida e sempre por fora de tudo; a prima loirinha e muleca dos olhos azuis; a prima meio muleca, meio metida, e sempre sorridente; a minha irmã gordinha, com o aparelho grudado no céu da boca; o menino de cabelo liso e baixo, com o óculos colorido; e o último, o sabichão da família, que era basicamente o líder da turma. Os seis, sentados no sofá olhando pra TV e conversando as vezes. Ele chegou, puxou um pacote enorme de bala 7 belo, sentou na grande poltrona de couro, a poltrona dele, só dele e de ninguém mais, abriu o grande pacote e nos entregou. Minha irmã olhou triste para ele porque nao podia comer o doce, ele sorriu e disse que não tinha problema, se meu pai brigasse com ela, ele brigaria com ele dizendo que a culpa nao era dela. Ela comeu, e o aparelho saiu pra fora da boca, mas nada se comparava com a alegria de comer a balinha que tanto amavamos.
Entrei no quarto, e ele estava deitado na cama com o gorro, com dois pompons pendurados, um de cada lado, então pulava em cima dele, e mexia com o lobo solto e mole da orelha dele.
Foi naquele dia, 03/03/1997, ele morreu de hepatite C. Eu só soube bem depois, na chance de sentir menos dor, a tentativa frustrada da minha mãe foi extremamente falha, ela me deu a notícia mais chocante que recebi na minha vida.
Eu aceitei o fato do meu avô ter morrido, uns anos depois disso ter acontecido, virei pra minha avó e falei: "Vou levar banana pro túmulo do meu vô, ele amava banana". Nunca cheguei a ir lá e sinto falta dele constantemente, e posso dizer que amei demais o meu avô enquanto ele viveu, apesar de ele ter sido tradicional ao extremo, e digo que apesar do tempo, dos quase 11 anos que se passaram, eu ainda o amo com todo meu coração e alma.
Nos casamentos as pessoas dizem que vão se amar até que a morte os separe, perder meu avô me mostrou o quão furado isso é;
Geraldo Magela Madureira Ribeiro, eu te amo pra sempre, muito além da morte.


4 comentários:
Eu sei o quanto é difícil =/ Cada tem sua dor, mas acho que perder alguém depois de jovem é pior. O importante é ter só as boas lembranças ^^
;*
Oh eu sinto muito. Sei o quanto é delicada viver uma situação assim, mas escrever é sempre uma boa maneira de escapar. Boa sorte e gostei do seu blog. ;)
Nega se te disser que meus olhos encheram de lágrima, mas eu num chorei p/ não fazer feio na frente do colega meu que tava aqui na hora que li...
"Nos casamentos as pessoas dizem que vão se amar até que a morte os separe, perder meu avô me mostrou o quão furado isso é;"
E tenho que concordar.
toda vez que eu vejo essa falta que vc sente dele.. eu tenho vontade de traze-lo de volta pra vc, bruninha. ;/
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